
A
experiência espiritual do encontro com Deus não é controlável. Sentimos que Ele
está, temos a certeza, mas não podemos controlá-lo. O homem foi feito para
dominar a natureza, esse seu preceito divino. Mas com seu Criador não pode
fazer isso. Por isso, na experiência de Deus sempre há uma interrogação, um
espaço para se lançar à fé. Rabino, o senhor disse uma coisa que, em parte, é
certa: podemos dizer o que não é Deus, podemos falar de seus atributos, mas não
podemos dizer o que é. Essa dimensão apofântica, que revela como falo de Deus,
é crucial em nossa teologia. Os místicos ingleses falam muito desse assunto. Há
um livro de um deles, do século XIII, A nuvem do desconhecimento, que tenta
diversas vezes descrever Deus e sempre acaba apontando o que Ele não é. A
missão da teologia é refletir e explicar os fatos religiosos, e, entre eles,
Deus. Também eu poderia classificar como arrogantes as teologias que tentaram
não só definir com certeza e exatidão os atributos de Deus, mas que tiveram a
pretensão de dizer totalmente como era. O livro de Jó é uma contínua discussão
sobre a definição de Deus. Há quatro sábios que vão elaborando essa busca
teológica, e tudo acaba com uma expressão de Jó: "Conhecia-te só de
ouvido, mas agora viram-te meus olhos". A imagem que Jó tem de Deus no
final é diferente da do início. A intenção desse relato é mostrar que a noção
desses quatro teólogos não é verdadeira, porque se está sempre buscando e encontrando
Deus. E, então, se dá este paradoxo: nós o buscamos para encontrá-lo e, porque
o encontramos, o buscamos. É um jogo muito agostiniano.
Fonte: Papa Francisco
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