terça-feira, 9 de setembro de 2014

A fazenda chamada Esperança

Dependência química

A fazenda chamada Esperança


Unidade da Igreja Católica em São Luís de Montes Belos será inaugurada com solenidade no sábado

Eduardo Pinheiro - de São Luís de Montes Belos 04 de setembro de 2014 (quinta-feira)


Unidade da Fazenda Esperança em São Luís de Montes Belos vai oferecer tratamento a dependentes químicos
Quatro voluntários levantam vigas de metal sob o sol escaldante do mês de setembro. A estrutura abrigará um palco para festividades de inauguração da Fazenda da Esperança, no município de São Luís de Montes Belos, a 127 quilômetros de Goiânia. É a 99ª obra do tipo do mundo. Somente no Brasil, são 70 propriedades rurais ligadas à Igreja Católica dedicadas à recuperação de jovens dependentes químicos.

Além do palco, os últimos detalhes da fazenda são colocados por voluntários. Placas de grama, britas para o calçamento, fossa sanitária e limpeza das acomodações. A partir de sábado, o lugar acolherá 30 jovens que querem se ver longe do mundo das drogas. São sete alqueires que abrigam duas casas, uma com três quartos coletivos, outra com quatro, campo de futebol e capela. Tudo para implantar a metodologia baseada em trabalho, espiritualidade e convivência.

Conforme explica o missionário responsável pela Fazenda da Esperança, de São Luís dos Montes Belos, Alexandre Falcão, o fato de ser localizada na zona rural dá tranqüilidade aos dependentes que buscam auxílio. A sensação de paz, integrada com a convivência dos internos, oferece um contraponto para os dependentes - que normalmente saíram de lares desestruturados e das ruas. Os jovens se dividem nas tarefas de manutenção da fazenda e venda de produtos.

Falcão diz que 80% dos internos que completam todos os passos da metodologia se integram novamente à sociedade sem problemas com drogas. “O ciclo dura um ano, que vai desde a acolhida até o retorno para a família”, diz. O tratamento é todo gratuito, mas cheio de obrigações, tanto para os internos, quanto para as famílias. Doações, trabalhos na própria fazenda, além da produção e venda dos produtos são as formas de pagamento.

Para entrar na fazenda para o tratamento é preciso passar por uma triagem. O primeiro passo é mandar uma carta, escrita de próprio punho pelo jovem que quer se tratar da dependência química. “Não adianta vir obrigado. Só se salva quem realmente quer. Por isso a exigência da carta”, explica Falcão. Depois é necessário passar por uma bateria de exames, com avaliação da saúde física, dentária e psicológica. Por fim, uma entrevista. “No olho a olho, sabemos quem quer vir realmente. Por isso é importante essa última etapa”, diz.

Aqueles que passam pela fase de acolhida aos poucos se integram no ritmo da fazenda. Com o tempo se tornam eles mesmos parte da própria estrutura de tratamento. Viram voluntários que ajudam os outros internos a darem, como eles, os próprios passos. Ao fim dos 12 meses de tratamento podem ser até integrados à estrutura maior que envolve as outras fazendas do Brasil e do exterior. O projeto tem mais de 30 anos e se espalha por mais de 30 países.

Voluntários

Erik Marlon, de 34 anos, é um desses ex-dependentes que passaram a compor a estrutura das fazendas espalhadas pelo País. Usuário de drogas desde os 15 anos, passou pela fazenda de Alagoas, seu Estado natal, duas vezes. Na primeira passagem largou antes do fim do tratamento. Voltou em julho do ano passado, por conta do vício. “O crack me tirou tudo que tinha. Gastei R$ 9 mil de uma rescisão de contrato trabalhista e tive o segundo divórcio”, lamenta.

Na segunda internação Erik seguiu todos os passos, saiu em julho deste ano. “Via na droga uma felicidade que não tinha em casa. Meu pai, major da Polícia Militar, é muito rígido, me agredia e me negou muita coisa”, diz. “Comecei a ver na rua uma saída para a opressão, comecei a me drogar. Perdi a primeira mulher, depois a segunda. Fiquei distante dos filhos. Mais tarde descobri que a felicidade que a rua e a droga dão é ilusória. Agora sou realmente feliz”, completa. Após cumprir todos os passos do tratamento veio de Maceió, a convite da Diocese de São Luís de Montes Belos, para ser um dos 13 voluntários que ajudaram na construção da Fazenda Esperança.

Todos os voluntários que trabalham na obra são ex-dependentes recuperados nas unidades da Fazenda Esperança. Vieram de todo o País com passagens pagas por eles mesmos, além de doações de meio salário mínimo cada para que a 99ª unidade saísse do chão.
Para a inauguração estão confirmados 2 mil pessoas e 35 ônibus de toda a Região Oeste do Estado. A expectativa é que a fazenda se torne referência no tratamento de dependentes e consiga, através de doações da comunidade, ampliar a capacidade, com a construção de mais duas casas. Os idealizadores e fundadores do projeto, frei Hans Stappel e Nelson Giovanelli, vêm a Goiás para a inauguração. Outras 50 unidades parecidas devem ser inauguradas neste ano em todo o País, além de Argentina, Chile e Estados Unidos.

Tratamento

Passos para tratamento na Fazenda Esperança:
■ Carta redigida em próprio punho pelo jovem que quer receber tratamento
■ Exames médicos, odontológicos e psicológicos
■ Entrevista
■ Tratamento de 12 meses contra dependência química


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